O meu tratamento para me manter viva e minimamente saudável passa em fazer um tratamento 3 vezes por semana. Este tratamento chama-se diálise.

A diálise é tratamento que substitui a função dos rins quando estes deixam de funcionar, remove os resíduos e excesso de líquidos do corpo. Esta alteração na vida de uma pessoa, como o facto de passar a depender de uma máquina para se manter vivo é violenta e muito dura.

A máquina de diálise. Um doente a fazer um tratamento de diálise.

Engane-se quem pensa que o processo é fácil e que alguma vez o vai ser, porque não vai. Mas se conseguirmos definir que a doença não nos define e somos muito mais que a doença, então podemos conseguir ultrapassar e aprender a conviver com tudo o que nos envolve. E essencialmente há que arranjar algo mais importante para nos agarrar à vida. A família, os filhos, a própria vida.

Para mim foi o meu filho e a minha família, mas essencialmente o meu filho. O facto de ser ainda muito pequeno fez com que eu tivesse necessidade de o proteger ao máximo desta minha condição. Não lhe escondi nada, expliquei tudo, o que pode acontecer, os processos, tudo de uma forma muito leve, incluo nesta minha nova vida. Ele inteligente como é, reagiu muito bem, com algumas situações pelo caminho, que fomos resolvendo conforme havia necessidade.

Mas de forma a que ele não sofresse com a minha doença, pois não é fácil passar a infância com um dos pais doentes, agarrei em todas as minhas forças e tentei levar uma vida o mais normal possível, lidando com o que os dias me oferecem, uns bons, outros menos bons.

Quando tenho necessidade de cair no buraco fundo que é a minha realidade, faço o sozinha. Dou-me ao luxo de tirar algumas horas por vezes para deprimir, para chorar, para me revoltar com o mundo. Porque é necessário chorar de vez em quando! Mas depois tudo passa.

As clínicas de diálise são horríveis, porque o que assistimos lá dentro não é agradável, são frias, são duras e o tratamento dependendo de cada pessoa também não é nada, mas nada fácil.

Normalmente são 4 horas de tratamento, deitadas num cadeirão a ver todo o nosso sangue a ser retirado do nosso corpo, passar numa máquina e voltar a ser inserido novamente lá dentro. Mas o pior não é isso, o pior é darmos com a nossa realidade no vizinho da frente , do lado, de olharmos em volta e ver os 20 cadeirões cheios de doentes, idosos que já mal aguentam os tratamentos, doentes que ficaram insuficientes renais devido a uma outra doença que os vão enfraquecendo cada vez mais. É ver doentes que estão ali há anos e já definham, que já estão cansados e o próprio organismo já pede descanso. Isso sim, é o mais difícil.

Por vezes é necessário guardar tudo numa gaveta e fingir que é tudo normal, voltar para os braços de quem nos ama e deixar esse inferno lá. Porque dia sim, dia não, teremos de voltar.

Mas não se deixem vencer, respirem fundo e tentem encontrar algo de bom para compensar o mau. Mudem a perspetiva, a forma de olhar. Tudo o que é mau, também tem algo de bom.

No meu caso, pude ganhar muito mais tempo com o meu filho, apoia-lo nos estudos, posso acompanhar a sua infância e não perco nada, porque com a insuficiência renal tive de começar a trabalhar em casa e isso foi muito bom para o pequeno. E isso faz-me feliz!

Chorem, mas depois levantem a cabeça e aproveitem o de bom que a vida oferece!

 

 

 

 

 

Comentários

1 comentário

Eu · 22 Maio, 2017 às 8:53 PM

É uma luta que só os mais fortes ultrapassam.
Muac

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