Acho que é assim que chamam o local que serve de intermédio entre a urgência e o serviço de internamento do Hospital Garcia de Orta.

Depois de estar algumas horas na urgência a aguardar a transferência, foi para aqui que me levaram, para a Box. É um local onde estão vários doentes com várias situações a aguardar que haja uma vaga no internamento da sua especialidade. No meu caso estava a aguardar uma vaga na Nefrologia que estava completamente completa.

Fiquei aqui algumas horas e foi dali que saí directa para fazer o meu primeiro cateter (uma experiência que não gosto de recordar) e já não retornei, pois a seguir fiz o meu primeiro tratamento de diálise e depois, um bocado que forçada subi finalmente para o internamento de Nefrologia.

Esta Box, estava cheia de doentes e a maioria com uma idade avançada. Não estava ninguém perto da minha idade ou com a minha condição. Havia um senhor que recordo estava numa situação tão degradante que nem sabia o que fazia, quando os enfermeiros deram conta tinha as pendurezas todas à mostra. Visão do inferno!

Não bastava estar ali sem rins, ainda tinha que ver os penduricalhos do raio do velho (coitado, sem culpa) que para meu azar estava mesmo numa maca à minha frente. Ahahahah! Agora têm piada!

Recordo que os enfermeiros disseram alguma piada e brincaram com a situação, com o facto de estar naquele propósito e estar ali eu, uma moça nova a ver aquilo.

Tentei sorrir e acho que saiu mesmo um sorriso. Nestes momentos temos de sentir o momento e deixar de viver no nosso corpo, o nosso subconsciente arranja forças  para nos proteger da tragédia que se abate sobre nós. Eu sei que um misero sorriso ainda consegui fazer!

Alguns médicos da especialidade vieram ver-me, fizeram-me perguntas, mas eu achava tudo muito confuso, aquilo não era para mim e eu mesma procurava uma resposta que eles não tinham para me dar. Iam-me tentando acalmar com um: vamos ver, ainda não sabemos se é definitivo.

Tentavam com as perguntas tentar chegar a uma razão para tudo ter acontecido. Não era normal uma pessoa da minha idade ter ficado sem rins sem alguma razão aparente.

Uma senhora ao meu lado, tentou fazer conversa comigo, o que tinha, o que não tinha, não ouvi nada, a não ser a vezes sem conta que falou de um dos filhos (tinha dois), em como era parecido Jesus Cristo. A senhora falou e falou e eu só pensava: por favor cala-te. Deixa-me em paz! Deixa-me tentar sentir, tentar perceber, tentar entender como cheguei até aqui!

Nunca esqueci este lugar… foram as minhas primeiras horas de um inferno que se abatera sobre mim e estava sozinha. Tentei por várias vezes tentar acordar daquele pesadelo, mas sempre que olhava em volta percebia que não era um sonho e era a minha nova realidade.

Até que um enfermeiro recebeu ordem para me levar para a pequena sala de cirurgia na ala de hemodiálise. Ia fazer o primeiro cateter.

Comentários

1 comentário

Eu · 2 Junho, 2017 às 10:35 AM

Gosto da maneira como escreves 😉

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