A minha vida terminou e recomeçou neste dia! No dia 1 tudo terminava e no dia 2 de Junho eu fui obrigada a decidir se vivia uma vida ou iria a limitar-me a sobreviver. Foram dias, semanas a pairar sobre mim mesma, mas como em tudo na vida, não podemos viver assim para sempre e um dia temos de voltar à nossa realidade, por muito dolorosa que seja.

No fundo tudo começou uma semana antes, cheia de sintomas aos quais nunca dei importância, mas isso será uma outra história, um outro post. Como disse anteriormente, este blog foi criado para falar sobre insuficiência renal, além de outras coisas. Mas também foi criado para falar da minha história, porque hoje consigo partilhar e quem sabe com isso ajudar alguém com a minha experiência!

Tudo começou neste dia 1 de Junho de 2014, Dia da Criança e último dia do Rock in Rio em Lisboa com Justin Timberlake a fechar o festival!

Neste dia estava de folga pedida especialmente, porque o meu marido tinha-me feito no Natal a oferta de um bilhete para o último dia do festival para  ver o Justin Timberlake.  Ele estava a fazer o festival à vários dias (é fotografo para o seu próprio site de música e festivais: Musicfest) e como tal andávamos desencontrados, pouco nos víamos em casa. Ele chegava de madrugada e dormia durante o dia e eu fazia turnos a sair à meia noite e sai de casa sempre antes dele acordar. Ou seja ele nunca notou de facto o meu estado a não ser no dia que fui com ele para o festival.

Nesse dia acordámos os dois ao mesmo tempo para irmos almoçar a Lisboa e irmos juntos para o Rock in Rio. O pirata estava na avó, mas neste dia foi passar o dia com um casal amigo, pois era dia da criança e festa de anos de uma amiguinha.

Quando estávamos prontos para sair de casa o meu marido olhou para mim e disse: Estás tão diferente, não te sentes bem? Que se passa?

Eu sabia que não estava bem, sentia-me mal à muitos dias e aquele dia estava ainda pior… mas respondi-lhe que realmente não me sentia bem à vários dias e já tinha uma consulta para o dia seguinte, que deveria de ser cansaço por tudo o que andava a acontecer no trabalho.  Decidimos ir conforme combinado e seguimos caminho para Lisboa.

Fomos almoçar um hambúrguer numa casa de hambúrgueres perto de uma igreja. Sinceramente não recordo o nome, mas o raio do hambúrguer era bom. Claro que o comi como se não houvesse amanhã e logo depois fiquei mal disposta como andava a acontecer regularmente. Já era algo habitual!

Depois de melhorar lá fomos para o festival. Mas o meu marido começava a ficar assustado porque nesta altura eu já tinha muita dificuldade em me movimentar. Aliás andar era um suplício, não era dor, era um cansaço tão extremo que quase que era dor. Começava a ter imensa dificuldade em respirar e sentia cada vez mais o meu coração a disparar, era tudo uma sensação horrível, que mais tarde percebi o porquê.

Sem saber eu estava quase a entrar em falência e todos os meus órgãos estavam a colapsar por ter potássio e líquidos a  mais em todo o meu organismo. Na verdade, hoje vejo que os meus pulmões estavam a encher de líquidos dificultado a minha respiração, o coração estavam a entupir em potássio por esse motivo eu sentia uma enorme aritmia.

Mas como sou teimosa, continuei ao lado do meu marido e tentei aproveitar ao máximo daquele dia, aproveitei para estar com amigos, assisti a um lindo casamento em pleno Rock in Rio (não vou dizer nomes, mas foi um casamento de verdade e memorável), assisti a parte do concerto de Justin Timberlake que tanto adoro. E esforcei-me ao máximo para parecer normal.

Mas a minha teimosia não venceu o meu corpo que já estava nos últimos esforços… recordo que era excruciante estar de pé e mesmo sentada era um suplício. Recordo de apenas desejar fechar os olhos e que tudo aquilo que estava a sentir acabasse ali. Era penoso demais. Mas de forma a não atrapalhar o marido que estava a trabalhar ia fingindo que a coisa se tolerava, mas aqui entre nós recordo que naqueles momentos eu estava a desistir.

Viemos embora, eu estava por um fio e o meu marido que já não dizia nada também acho que estava assustado de ver o meu estado. Ele sugeriu ir directamente para o hospital, onde fariam algumas analises e exames, mas teimosa  como sou, comecei a tentar regatear com o facto de que naquele dia  à tarde tinha já uma consulta com a minha médica

Não se deu por vencido e acabou por me convencer, com o facto de que no hospital fariam logo exames e me dariam logo algum tipo de tratamento e assim no dia seguinte iria sentir-me melhor para ir trabalhar.

Nunca vou esquecer… dei entrada no Hospital Garcia de Orta às 3 da manhã certas, fui chamada para a triagem quando olhei para o relógio nesse momento e os ponteiros batiam certinhos nas 3h.

Assim que passei a fase da triagem tudo se desenrolou muito rápido (ou talvez não). Fui chamada para ser vista por uma médica estrangeira, onde me mandou fazer algumas análises um pouco a contra vontade. A consulta com esta médica não estava a resultar muito bem, porque tentávamos explicar que eu não estava no meu estado normal, que estava bastante inchada e ela apenas respondia: No edema! No edema!

Até que o meu marido sacou de fotos minhas do telemóvel e mostrou como eu estava uma semana antes e como eu estava naquele preciso momento e isso não era normal. Os meus tornozelos pareciam dois troncos, eu vestia roupa de quando estive grávida do meu filho, 5 anos antes e todas estas alterações tinham ocorrido numa semana.

Numa semana o meu corpo começou a definhar, acumulando líquidos atrás de líquidos (eu chegava a beber 2 a 3 litros de água por dia), a minha alimentação sempre foi muita fruta e saladas, logo estava a acumular quantidades astronómicas de potássio que para quem não sabe é mortal, o cansaço era horrível e foram muitas as situações que as minha colegas deram comigo com um ar muito estranho, a enrolar a língua e dificuldades a falar.

Mas a médica apenas dizia: No edema!

Fiz as análises e esperei pouco mais de uma hora. Tentei dormitar no colo do meu marido e é aqui que o meu pesadelo começa. O enfermeiro que me tira o sangue passa por nós que estávamos à espera de ser chamados, olha para o meu marido e como pensa que estou a dormir diz-lhe: A situação dela é grave, já não vai sair daqui e vão interná-la! Pelo menos uma anemia grave têm. Mas ainda vão fazer mais exames.

Claro que eu não estava a dormir e logo aqui começo a chorar. Eu não queria ficar ali, mil coisas me passaram pela cabeça e uma delas era: Eu tinha acabado de ser promovida a chefe de loja e ia nesse dia começar a minha nova função. Tinha trabalhado muito para ali chegar e não podia mesmo faltar, tinha de ir abrir a loja.

O meu marido tentou sossegar-me que era para o meu melhor, que não seria mais de 3 ou 4 dias e seria apenas para tratar da anemia, porque estava fraca e não podia ir para casa. Fiz os telefonemas necessários para salvaguardar a loja e o meu horário e resignei-me à ideia de ali passar alguns dias.

Entretanto, já mais tranquila chamam-me para uma médica que me faz um check up total e uma data de questões. Aqui eu já sentia que as coisas não me estavam a correr bem e só iam piorar. Não conseguia responder às coisas em condições e na minha cabeça passava milhões panoramas drásticos. Estava tudo a ficar confuso!

Fizeram logo o meu internamento, deram-me uma roupa horrível de hospital e colocaram todas as minhas coisas num saco de lixo para o marido levar. Já deitada numa maca levaram-me para fazer uma ecografia renal, a tal que me ditou o destino.

Entrei na sala, a assistente simpática foi metendo conversa comigo, o marido tinha ficado lá fora e eu apenas comecei a flutuar sobre mim mesma. Ouvia a assistente ao longe, enquanto esperava pelo médico, uma rapaz novo, possivelmente muito fresco na profissão. Ele chegou e iniciou o exame, não falou, apenas observava o monitor. Sei que demorou e depois ouvi: Vá chamar a Dra… com urgência.

Naquele momento eu sabia que o meu problema estava ali e não sei como, mas já sabia que os meus rins tinham falhado por completo.

A médica, possivelmente a chefe, chegou. Analisou e disparou um frio: Sim, os rins estão completamente necro… e deixei de ouvir!

Quando sai da sala na maca, não conseguia falar, apenas sentia as lágrimas caírem 4 a 4. A médica anterior que me tinha feito milhares de questões passava por mim. Entrou na sala de ecografias e voltou a sair e deu-me a fatídica noticia: Era verdade o meus rins tinham parado completamente.

Tudo o que se passou a seguir ainda surge na minha memória como uma mau pesadelo, um pesadelo turvo que cada vez que o recordo sinto um arrepio na espinha.

Depois do internamento, passei 13 dias naquele hospital em exames e tentativas de estabilizar. A primeira coisa que fizeram foi colocar um cateter para iniciar a diálise e depois foram dias a tentar entender o que se passara por mim e pelos médicos.

Foram dias terríveis aos quais tentei sobreviver. Não vivi nenhum deles, apenas sobrevivi, porque isso está no nosso DNA, quando existe um choque grande na nossa vida ou no nosso corpo o  subconsciente tenta bloquear a dor de forma a dar tempo à recuperação. Foi o que aconteceu, eu sobrevivi pairando sobre mim mesma estes dias e possivelmente ainda algumas semanas, dei tempo a mim mesma de recuperar de um choque. A minha vida acabara e dependia de mim recomeçar ou não uma nova.

Parece um cliché, mas o destino estava a dar-me os limões mais amargos que havia e cabia a mim fazer ou não uma boa limonada.

Eu decidi viver e apesar de todos os contratempos, prefiro viver com isto do que apenas sobreviver. Sou feliz com muitos momentos infelizes, mas sou feliz. Cabe a nós na desgraça, ver a luz  e tentar agarrá-la da melhor forma possível.

Vou continuar a contar o que aconteceu a partir daqui… foi uma aventura que terá de ser contada devagar, porque apesar de tudo, ainda doí cada vez que a recordo, faz parte. Mas também é um alivio! Para mim é sempre difícil este dia, custa-me recordar, doí lembrar o que perdi, é uma espécie de luto, uma certa saudade dolorosa. Mas passa, passa como tudo!

Comentários

3 comentários

Eu · 1 Junho, 2017 às 9:26 PM

Chorei…muito

    paulaalmeida · 2 Junho, 2017 às 8:00 AM

    Estava assim tão mau? O texto? 🙂

Eu · 2 Junho, 2017 às 10:31 AM

Simmmmm

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