A crueldade das pessoas

Já ontem tinha começado a escrever este post.  Mas não o terminei e ainda bem, porque à noite acabei por conhecer uma outra perspetiva que não a minha e isso mudou um pouco a minha forma de pensar.

As pessoas podem ser bastante cruéis e bastante inconvenientes muitas vezes! Até roçar a indelicadeza!

Para quem não sabe ou tem conhecimento, eu para fazer o meu tratamento de hemodiálise 3 vezes por semana, tive de fazer uma fístula, para que tivesses uma veia suficiente forte para aguentar 2 agulhas grandes em que por uma saí o sangue e outra entra.

Só que as fístulas tem um inconveniente, com o passar do tempo criam grandes aneurismas (“tipo batatas”) nas zonas que a pessoa é constantemente picada e deforma o braço. Além de não ser confortável, também não é estético!

Mas infelizmente não posso já dar muita importância à estética do meu braço! É o que é e pronto!

Mas as pessoas perante o desconhecido e má informação, conseguem ser umas “bestas”! Desde que o meu braço começou a desenvolver o que mais me irrita são os olhares e cochicho! Ou quando chegam ao ponto de um estranho chegar perto de mim e perguntar: – Coitada! Que lhe aconteceu ao braçinho? Partiu o braço?

Sério? Sério que parece um braço partido? Sério que ao menos disfarçava e não perguntava nada, porque até não conheço a senhora de lado nenhum!

Na praia então é horrível e não me sinto nada à vontade. Primeiro porque sempre tive muitos complexos, fosse porque fosse, então agora ainda pior.

Quando começa o calor é horrível, porque ando sempre até à última de manga comprida, até não aguentar mais. Mas depois com o habito vai passando e quando chego ao final a coisa já normalizou.

Mas ontem quando falava com uma colega de tratamento, percebi que estava a ser parva, porque outra pessoas passam pelo mesmo ou pior.

Ela sempre teve problemas de saúde e desde os 13 anos é insuficiente renal. Ela andou no secundário com estes problemas, andou na faculdade e todos nós sabemos como as crianças, os adolescentes e alguns jovens ainda podem ser muito mais cruéis.

Quando falávamos lembrava da minha adolescência, como por um lado foi bastante difícil, como tinha colegas bastantes cruéis e más, mesmo más! Aqui um aparte, as miúdas podem ser mesmo más! E não tinha nada fora do vulgar, nenhum problema de saúde. E ai olhei para ela e pensei: Para ti não deve ter sido mesmo nada fácil! E ainda eu me queixo!

Claro que tenho direito às minhas paranóias, aos meus complexos, mas a verdade é que se sairmos da nossa concha e olharmos para fora podemos ver que nós até fomos umas sortudas!

A minha colega de tratamento é uma pessoa muito divertida e simpática, que não deixa todos os seus problemas ditarem a sua vida. Como todos nós é humana, mas nunca deixou que a doença dominasse a sua vida. E eu penso como ela!

Isto para dizer que as pessoas são inconvenientes e muitas vez não tem tacto, é verdade! Mas muitas vezes fechamo-nos no nosso sofrimento, nos azares que nos aconteceram e não vemos que ao nosso lado pessoas passam por pior ou vivem pior e mostram sempre um sorriso à vida!

É verdade à 3 anos fiquei sem rins, passei por um choque, passei por coisas terríveis para mim. Fiquei sem o meu emprego e com a impossibilidade de voltar a ter filhos, quase morri num exame que fiz ao braço, pois fiz um edema gravíssimo nos pulmões, mas sobrevivi, já vivi algumas peripécias. Mas hoje vejo que sou uma sortuda e que muitas outras pessoas vivem coisas piores e estão satisfeitos com a vida.

Para que a vida nos corra bem, temos de sorrir-lhe, mesmo quando ela nos prega partidas! Pois já é tão difícil tudo o resto, não temos necessidade de tornar piores!

E vocês como encaram a vida?

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A primeira coisa que perdi

A primeira coisa que perdi quando fiquei doente foi o emprego. Recordo que foi uma fase muito complicada, sentia-me perdida sem rumo.

Na altura trabalhava numa empresa de telecomunicações em loja. Acho que já lá estava à 4 anos! Tinha começado como lojista e fui devagarinho conquistando o meu lugar. Na altura tinha alcançado o meu objetivo! Era sub-chefe de uma das lojas, tinha toda equipa a dar o seu melhor, as minhas coordenadoras mostravam-se contentes com o nosso trabalho e a minha chefe da altura trabalhava comigo de igual para igual, havia um trabalho mútuo para levar a nossa equipa a alcançar os máximo dos objetivos.

O meu objetivo era ser sub-chefe e não chefe de loja, por algum motivo que não sei explicar nunca ambicionei ser chefe de loja. Estávamos numa loja que vendia bastante e mantinha-se constantemente no top de vendas, a nossa coordenadora tinha alguns problemas com outras lojas que vendiam menos e necessitava de perceber se era um problema de local ou da própria equipa.

Para tentar resolver o problema dela, fez nos a proposta de passarmos para a outra loja durante um mês, mas não apenas nós sub-chefe e chefe, mas toda a nossa equipa. Recordo que ficámos super assustadas, pois como iríamos dizer a uma equipa que tinha de mudar de loja, ter outros gastos, alterar as suas rotinas, sem que se negassem.

Na altura disse à minha chefe, vamos reunir-nos as duas para acertar as nossas agulhas, para quando transmitirmos a noticia o fazermos de forma coesa, o fazermos a todos em conjunto e tentarmos que ninguém se oponha.

A nossa sorte é que tínhamos uma excelente equipa, ninguém se opôs e sentiram garra de ir e fazer a outra loja algo que nunca tinha sido. E fizemos!

Claro que tentámos ajustar a mudança da melhor forma para ninguém sair prejudicado. Ora se um colega não lhe dava jeito fazer manhãs, devido aos transportes, fazíamos o horário para que assim fosse, porque haveria sempre alguém a preferir as tardes e as noites. E caso se desse que eu ou a minha chefe tivéssemos que prejudicar a nós, assim fazíamos. Queríamos uma equipa feliz, pois sabíamos que era a forma de vender mais.

A loja passou a vender o triplo, a nossa equipa nunca baixou os números e provámos que o problema não era da loja. Claro que com isto, o tal mês de experiência, passou para dois e de dois passou para quase três. Mas pronto!

Vou ser sincera, foi a época em que me senti mais realizada! Na altura sentia o apresso, sentia que me davam valor! Além que fazia o que mais gostava: atendimento ao publico! Não é um trabalho fácil, mas se o fizermos com gosto, pode ser muito gratificante.

Muitas pessoas podem achar que quem está atrás de um balcão é somente um ou uma funcionária, mas não, pois é muito mais que isso. É alguém que tem de estar pronta para lidar com várias situações, que tem de aprender a controlar os sentimentos, tem de ser constantemente simpática, até quando está naqueles dias que lhe apetece chorar, tem de saber ouvir, mostrar empatia. Muitas vezes somos psicólogas, outras educadoras, outras apenas invisíveis… mas acima de tudo temos de gostar do que fazemos.

Tenho tantas histórias divertidas, algumas assustadoras e outras muito tristes! Mas este contacto com as pessoas sempre me deixou feliz! Depois quando me tornei sub-chefe iniciei um outro tipo de contacto  e esse também muito gratificante! O de tentar manter sempre a minha equipa unida com espírito  competitivo.

Foram meses divertidos, divertimo-nos bastante, porque além do trabalho tínhamos de fomentar a relação dos colegas. E a verdade é que ficámos bastantes unidos na altura.

Tinha-nos proposto algo e tínhamos saído bem, nunca me tinha sentido tão realizada, como na altura. Entretanto a coordenadora propôs voltarmos às lojas, mas agora dividindo as duas equipas de forma a que eu ficasse com metade da minha e metade da outra numa loja e a minha chefe na mesma, mas na loja onde estávamos.

Eu ia voltar à minha loja como chefe (temporariamente) durante 6 meses e depois quando a chefe daquela loja voltasse da baixa de maternidade, passaria a sub-chefe, o pretendido da minha parte. Estava super contente!

Mas nunca aconteceu, porque o primeiro dia que iria voltar e assumir o meu novo posto, fui internada e todo o meu trabalho diluiu-se em nada.

Estive 4 meses de baixa, até se aproximar o final do meu contrato. E como para as empresas nós somos apenas números, fui dispensada de forma simpática. Não iriam renovar o meu contrato, mas assim que eu pudesse voltar a trabalhar, teria a porta aberta e iria ser admitida automaticamente.

O problema é que eu trabalhava numa loja por turnos e fazia 3 vezes por semana diálise durante 4 horas, na altura durante o dia, o que significava que chegava a casa completamente esgotada. Ou seja impossível trabalhar!

Fui obrigada a aceitar o ponto de vista deles, apesar de ter custado horrores. Mas a vida é assim.

Passei um ano e meio no fundo de emprego, em casa. Depois o meu marido acabou por me colocar como funcionária da empresa e hoje sou assistente dele, onde consigo conciliar os meus tratamentos e o trabalho.

Existem dias que tenho de passar no sofá, pois não me sito bem. E outros em que as coisas vão correndo bem. Mas infelizmente é a minha condição e tenho de a aceitar.

Mas a verdade é que não é a mesma coisa! Não sinto o que sentia anteriormente, a satisfação da conquista por mim própria, de saber que fui eu que alcancei aquilo ou que ajudei num objetivo.

Faz-me muita falta a competitividade, a garra que éramos obrigados a ter. Faz falta ter de lidar com as pessoas, de ter os pequenos atritos que eram comuns. Sinto saudades de olhar para a minha equipa de a ver feliz, satisfeita e saber que tinha sido a responsável. Afinal tinha descoberto que ser sub-chefe era uma vocação.

E atenção não é que o que faço hoje não me satisfaça, pois gosto do meu trabalho, simplesmente é diferente. Falta-me um bichinho!

Mas temos que nos adaptar e o passado não volta!

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Eu e água!

Ora para quem não tem conhecimento, quem sofre de insuficiência renal está muito condicionado na ingestão de líquidos.

Nem todos são assim, mas no meu caso é! Quando os meus rins pararam, fiquei sem qualquer uma das suas funcionalidades, tanto o filtrar, como o expelir os líquidos a mais no corpo. Ou seja eu absorvo tudo e tenho de depender de uma machine para ajudar a tirar todos os líquidos e substância nocivas a mais no organismo.

Eu podia ter ficado sem os rins, mas ao menos que continuassem a mandar os líquidos para fora, assim bebia o que queria, quando queria.

Já podem imaginar este fim de semana? Calor de morrer e eu sem beber água! Pois sim, antes morrer afogada, que de sede. Quem paga depois a conta no dia de tratamento é o meu corpinho mesmo!

Não quero nem imaginar o que acumulei neste fim de semana! A máquina hoje vai fazer pum, com a quantidade de água que terá de tirar. Temos pena! Mesmo assim sinto-me completamente seca, como se morasse no deserto! Oh Wait! (Alguém disse que moro)

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2 anos

Parabéns a mim e ao meu amado esposo!

Hoje fazemos 2 anos de casados, 2 anos em 13 anos de vida em conjunto!

Parece que foi ontem que começámos a viver juntos, numa de “vamos ver o que isto dá”! Tem sido um percurso com alguns obstáculos, que se vão  ultrapassando e que se vão transformado em lições de vida.

Parabéns a nós, meu amor! Que venham mais 2, mais 13, que seja pela vida inteira. Luv U too Much!

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Que calor!

Está um calor de morrer!

Não sei se é devido à minha condição de saúde, se sou eu que estou a ficar velha ou o quê? Mas cada ano que passa tenho sempre a sensação que não vou sobreviver ao calor!

Tenho estado fechada em casa, porque não consigo andar na rua. De manhã vou levar o meu filho à escola e depois ta partir da 13 da tarde, fica tudo impossível.

Hoje cheguei ao cúmulo de fechar todas as persianas da sala, colocar tudo às escuras e ligar a ventoinha directamente para mim, porque estava com tanto calor que nem respirar conseguia. E isto ainda estamos em Junho.

Eu acho que esta “alergia” ao calor começou à 3 anos quando fiquei doente. De ano, para ano cada vez está pior!

Quando fica as horas de mais calor, começo a ficar mal disposta, sinto o corpo a inchar para todos os lados, sinto arritmia e fico como se algo estivesse a espremer o peito. Horrível!

Não sei como fazer este ano, como vou sobreviver!

Estou a pensar seriamente comprar uma arca congeladora e entrar lá para dentro,  pedir ao meu marido para a desligar só em Outubro para iniciar a descongelação.

E amanhã é a festa do meu filho no colégio às 17h e tenho de ir porque estou sozinha e o marido de viagem em França. Vou morrer, já estou a avisar!

Será que sou só eu, ou anda mais alguém a passar pelo mesmo?

 

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O desespero

Por muito que uma pessoa seja positiva e tente encarar o seu problema de saúde da melhor forma, seja ele qual for, existem sempre momentos de desespero.

No meu caso não é diferente! Apesar de tentar transmitir uma forma positiva com que encaro a minha doença,  insuficiência renal crónica, apesar de dizer que aprendi a viver com isto, que optei a não me atirar para uma cama e desistir.  Apesar de tudo isso, também vivo muitos momentos negros, de muita negatividade, de muito desespero.

Hoje é um desses dias, um dos dias em que chego do meu tratamento de 7 horas (porque faço diálise noturna), em que acordo já com um imenso latejo na cabeça, como se sentisse todo o sangue a irrigar-me o cérebro, como se conseguisse sentir cada comunicação passada entre os meus neurónios. E em que a única coisa que quero é dormir!

Mas olho em volta e penso que tenho de sacrificar mais um pouco, tenho de sorrir quando quero chorar e penso… é só mais um passo, daqui a pouco tudo passa! Mas não consigo!

Nas últimas semanas são menos os dias que passo bem, do que aqueles em que passo mal. Mas vou caminhando em frente na esperança do próximo ser melhor. Mas hoje, hoje estou cansada! Sinto cansada de tentar, de lutar! Sinto cansada de tanto positivismo quando no fundo quero desistir.

Tentei com todas as minhas forças não atingir este ponto outra vez, juro que tentei afastar esta nuvem negra de cima de mim, mas as dores, o mau estar venceu-me e um contratempo despontou o meu desespero.

Este desespero invade a minha alma, toma conta de tudo e inicia uma catapulta de sentimentos, emoções e recordações. Parece que tudo o que houve de negativo na minha vida me invade, sem deixar espaço para qualquer tipo de pensamento melhor ou bom.

Sinto um nó na garganta, uma revolta, sinto-me injustiçada, magoada. Mas hoje não consigo chorar! É horrível quando entro neste loop. É desesperante!

No meu caso, deixo-me estar quieta. É como se fosse um furacão! Deixo varrer tudo em volta e aguardo que passe! Tento dormir na minha agonia, na esperança de acordar melhor!

Sim, a minha vida deu-me limões e eu fiz uma bela limonada. Mas de quando em quando até a mim me sabe amargo!

O importante é saber que estes momentos existem, dar tempo e acreditar que não são para sempre. E tentar no dia seguinte ou no outro voltar a levantar e caminhar, com um nem que seja mínimo, sorriso na cara.

Porque temos de sorrir para a vida, para ela nos sorrir de volta! Hoje não, mas amanhã talvez!

Bom fim de semana!

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A box

Acho que é assim que chamam o local que serve de intermédio entre a urgência e o serviço de internamento do Hospital Garcia de Orta.

Depois de estar algumas horas na urgência a aguardar a transferência, foi para aqui que me levaram, para a Box. É um local onde estão vários doentes com várias situações a aguardar que haja uma vaga no internamento da sua especialidade. No meu caso estava a aguardar uma vaga na Nefrologia que estava completamente completa.

Fiquei aqui algumas horas e foi dali que saí directa para fazer o meu primeiro cateter (uma experiência que não gosto de recordar) e já não retornei, pois a seguir fiz o meu primeiro tratamento de diálise e depois, um bocado que forçada subi finalmente para o internamento de Nefrologia.

Esta Box, estava cheia de doentes e a maioria com uma idade avançada. Não estava ninguém perto da minha idade ou com a minha condição. Havia um senhor que recordo estava numa situação tão degradante que nem sabia o que fazia, quando os enfermeiros deram conta tinha as pendurezas todas à mostra. Visão do inferno!

Não bastava estar ali sem rins, ainda tinha que ver os penduricalhos do raio do velho (coitado, sem culpa) que para meu azar estava mesmo numa maca à minha frente. Ahahahah! Agora têm piada!

Recordo que os enfermeiros disseram alguma piada e brincaram com a situação, com o facto de estar naquele propósito e estar ali eu, uma moça nova a ver aquilo.

Tentei sorrir e acho que saiu mesmo um sorriso. Nestes momentos temos de sentir o momento e deixar de viver no nosso corpo, o nosso subconsciente arranja forças  para nos proteger da tragédia que se abate sobre nós. Eu sei que um misero sorriso ainda consegui fazer!

Alguns médicos da especialidade vieram ver-me, fizeram-me perguntas, mas eu achava tudo muito confuso, aquilo não era para mim e eu mesma procurava uma resposta que eles não tinham para me dar. Iam-me tentando acalmar com um: vamos ver, ainda não sabemos se é definitivo.

Tentavam com as perguntas tentar chegar a uma razão para tudo ter acontecido. Não era normal uma pessoa da minha idade ter ficado sem rins sem alguma razão aparente.

Uma senhora ao meu lado, tentou fazer conversa comigo, o que tinha, o que não tinha, não ouvi nada, a não ser a vezes sem conta que falou de um dos filhos (tinha dois), em como era parecido Jesus Cristo. A senhora falou e falou e eu só pensava: por favor cala-te. Deixa-me em paz! Deixa-me tentar sentir, tentar perceber, tentar entender como cheguei até aqui!

Nunca esqueci este lugar… foram as minhas primeiras horas de um inferno que se abatera sobre mim e estava sozinha. Tentei por várias vezes tentar acordar daquele pesadelo, mas sempre que olhava em volta percebia que não era um sonho e era a minha nova realidade.

Até que um enfermeiro recebeu ordem para me levar para a pequena sala de cirurgia na ala de hemodiálise. Ia fazer o primeiro cateter.

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1 de Junho de 2014

A minha vida terminou e recomeçou neste dia! No dia 1 tudo terminava e no dia 2 de Junho eu fui obrigada a decidir se vivia uma vida ou iria a limitar-me a sobreviver. Foram dias, semanas a pairar sobre mim mesma, mas como em tudo na vida, não podemos viver assim para sempre e um dia temos de voltar à nossa realidade, por muito dolorosa que seja.

No fundo tudo começou uma semana antes, cheia de sintomas aos quais nunca dei importância, mas isso será uma outra história, um outro post. Como disse anteriormente, este blog foi criado para falar sobre insuficiência renal, além de outras coisas. Mas também foi criado para falar da minha história, porque hoje consigo partilhar e quem sabe com isso ajudar alguém com a minha experiência!

Tudo começou neste dia 1 de Junho de 2014, Dia da Criança e último dia do Rock in Rio em Lisboa com Justin Timberlake a fechar o festival!

Neste dia estava de folga pedida especialmente, porque o meu marido tinha-me feito no Natal a oferta de um bilhete para o último dia do festival para  ver o Justin Timberlake.  Ele estava a fazer o festival à vários dias (é fotografo para o seu próprio site de música e festivais: Musicfest) e como tal andávamos desencontrados, pouco nos víamos em casa. Ele chegava de madrugada e dormia durante o dia e eu fazia turnos a sair à meia noite e sai de casa sempre antes dele acordar. Ou seja ele nunca notou de facto o meu estado a não ser no dia que fui com ele para o festival.

Nesse dia acordámos os dois ao mesmo tempo para irmos almoçar a Lisboa e irmos juntos para o Rock in Rio. O pirata estava na avó, mas neste dia foi passar o dia com um casal amigo, pois era dia da criança e festa de anos de uma amiguinha.

Quando estávamos prontos para sair de casa o meu marido olhou para mim e disse: Estás tão diferente, não te sentes bem? Que se passa?

Eu sabia que não estava bem, sentia-me mal à muitos dias e aquele dia estava ainda pior… mas respondi-lhe que realmente não me sentia bem à vários dias e já tinha uma consulta para o dia seguinte, que deveria de ser cansaço por tudo o que andava a acontecer no trabalho.  Decidimos ir conforme combinado e seguimos caminho para Lisboa.

Fomos almoçar um hambúrguer numa casa de hambúrgueres perto de uma igreja. Sinceramente não recordo o nome, mas o raio do hambúrguer era bom. Claro que o comi como se não houvesse amanhã e logo depois fiquei mal disposta como andava a acontecer regularmente. Já era algo habitual!

Depois de melhorar lá fomos para o festival. Mas o meu marido começava a ficar assustado porque nesta altura eu já tinha muita dificuldade em me movimentar. Aliás andar era um suplício, não era dor, era um cansaço tão extremo que quase que era dor. Começava a ter imensa dificuldade em respirar e sentia cada vez mais o meu coração a disparar, era tudo uma sensação horrível, que mais tarde percebi o porquê.

Sem saber eu estava quase a entrar em falência e todos os meus órgãos estavam a colapsar por ter potássio e líquidos a  mais em todo o meu organismo. Na verdade, hoje vejo que os meus pulmões estavam a encher de líquidos dificultado a minha respiração, o coração estavam a entupir em potássio por esse motivo eu sentia uma enorme aritmia.

Mas como sou teimosa, continuei ao lado do meu marido e tentei aproveitar ao máximo daquele dia, aproveitei para estar com amigos, assisti a um lindo casamento em pleno Rock in Rio (não vou dizer nomes, mas foi um casamento de verdade e memorável), assisti a parte do concerto de Justin Timberlake que tanto adoro. E esforcei-me ao máximo para parecer normal.

Mas a minha teimosia não venceu o meu corpo que já estava nos últimos esforços… recordo que era excruciante estar de pé e mesmo sentada era um suplício. Recordo de apenas desejar fechar os olhos e que tudo aquilo que estava a sentir acabasse ali. Era penoso demais. Mas de forma a não atrapalhar o marido que estava a trabalhar ia fingindo que a coisa se tolerava, mas aqui entre nós recordo que naqueles momentos eu estava a desistir.

Viemos embora, eu estava por um fio e o meu marido que já não dizia nada também acho que estava assustado de ver o meu estado. Ele sugeriu ir directamente para o hospital, onde fariam algumas analises e exames, mas teimosa  como sou, comecei a tentar regatear com o facto de que naquele dia  à tarde tinha já uma consulta com a minha médica

Não se deu por vencido e acabou por me convencer, com o facto de que no hospital fariam logo exames e me dariam logo algum tipo de tratamento e assim no dia seguinte iria sentir-me melhor para ir trabalhar.

Nunca vou esquecer… dei entrada no Hospital Garcia de Orta às 3 da manhã certas, fui chamada para a triagem quando olhei para o relógio nesse momento e os ponteiros batiam certinhos nas 3h.

Assim que passei a fase da triagem tudo se desenrolou muito rápido (ou talvez não). Fui chamada para ser vista por uma médica estrangeira, onde me mandou fazer algumas análises um pouco a contra vontade. A consulta com esta médica não estava a resultar muito bem, porque tentávamos explicar que eu não estava no meu estado normal, que estava bastante inchada e ela apenas respondia: No edema! No edema!

Até que o meu marido sacou de fotos minhas do telemóvel e mostrou como eu estava uma semana antes e como eu estava naquele preciso momento e isso não era normal. Os meus tornozelos pareciam dois troncos, eu vestia roupa de quando estive grávida do meu filho, 5 anos antes e todas estas alterações tinham ocorrido numa semana.

Numa semana o meu corpo começou a definhar, acumulando líquidos atrás de líquidos (eu chegava a beber 2 a 3 litros de água por dia), a minha alimentação sempre foi muita fruta e saladas, logo estava a acumular quantidades astronómicas de potássio que para quem não sabe é mortal, o cansaço era horrível e foram muitas as situações que as minha colegas deram comigo com um ar muito estranho, a enrolar a língua e dificuldades a falar.

Mas a médica apenas dizia: No edema!

Fiz as análises e esperei pouco mais de uma hora. Tentei dormitar no colo do meu marido e é aqui que o meu pesadelo começa. O enfermeiro que me tira o sangue passa por nós que estávamos à espera de ser chamados, olha para o meu marido e como pensa que estou a dormir diz-lhe: A situação dela é grave, já não vai sair daqui e vão interná-la! Pelo menos uma anemia grave têm. Mas ainda vão fazer mais exames.

Claro que eu não estava a dormir e logo aqui começo a chorar. Eu não queria ficar ali, mil coisas me passaram pela cabeça e uma delas era: Eu tinha acabado de ser promovida a chefe de loja e ia nesse dia começar a minha nova função. Tinha trabalhado muito para ali chegar e não podia mesmo faltar, tinha de ir abrir a loja.

O meu marido tentou sossegar-me que era para o meu melhor, que não seria mais de 3 ou 4 dias e seria apenas para tratar da anemia, porque estava fraca e não podia ir para casa. Fiz os telefonemas necessários para salvaguardar a loja e o meu horário e resignei-me à ideia de ali passar alguns dias.

Entretanto, já mais tranquila chamam-me para uma médica que me faz um check up total e uma data de questões. Aqui eu já sentia que as coisas não me estavam a correr bem e só iam piorar. Não conseguia responder às coisas em condições e na minha cabeça passava milhões panoramas drásticos. Estava tudo a ficar confuso!

Fizeram logo o meu internamento, deram-me uma roupa horrível de hospital e colocaram todas as minhas coisas num saco de lixo para o marido levar. Já deitada numa maca levaram-me para fazer uma ecografia renal, a tal que me ditou o destino.

Entrei na sala, a assistente simpática foi metendo conversa comigo, o marido tinha ficado lá fora e eu apenas comecei a flutuar sobre mim mesma. Ouvia a assistente ao longe, enquanto esperava pelo médico, uma rapaz novo, possivelmente muito fresco na profissão. Ele chegou e iniciou o exame, não falou, apenas observava o monitor. Sei que demorou e depois ouvi: Vá chamar a Dra… com urgência.

Naquele momento eu sabia que o meu problema estava ali e não sei como, mas já sabia que os meus rins tinham falhado por completo.

A médica, possivelmente a chefe, chegou. Analisou e disparou um frio: Sim, os rins estão completamente necro… e deixei de ouvir!

Quando sai da sala na maca, não conseguia falar, apenas sentia as lágrimas caírem 4 a 4. A médica anterior que me tinha feito milhares de questões passava por mim. Entrou na sala de ecografias e voltou a sair e deu-me a fatídica noticia: Era verdade o meus rins tinham parado completamente.

Tudo o que se passou a seguir ainda surge na minha memória como uma mau pesadelo, um pesadelo turvo que cada vez que o recordo sinto um arrepio na espinha.

Depois do internamento, passei 13 dias naquele hospital em exames e tentativas de estabilizar. A primeira coisa que fizeram foi colocar um cateter para iniciar a diálise e depois foram dias a tentar entender o que se passara por mim e pelos médicos.

Foram dias terríveis aos quais tentei sobreviver. Não vivi nenhum deles, apenas sobrevivi, porque isso está no nosso DNA, quando existe um choque grande na nossa vida ou no nosso corpo o  subconsciente tenta bloquear a dor de forma a dar tempo à recuperação. Foi o que aconteceu, eu sobrevivi pairando sobre mim mesma estes dias e possivelmente ainda algumas semanas, dei tempo a mim mesma de recuperar de um choque. A minha vida acabara e dependia de mim recomeçar ou não uma nova.

Parece um cliché, mas o destino estava a dar-me os limões mais amargos que havia e cabia a mim fazer ou não uma boa limonada.

Eu decidi viver e apesar de todos os contratempos, prefiro viver com isto do que apenas sobreviver. Sou feliz com muitos momentos infelizes, mas sou feliz. Cabe a nós na desgraça, ver a luz  e tentar agarrá-la da melhor forma possível.

Vou continuar a contar o que aconteceu a partir daqui… foi uma aventura que terá de ser contada devagar, porque apesar de tudo, ainda doí cada vez que a recordo, faz parte. Mas também é um alivio! Para mim é sempre difícil este dia, custa-me recordar, doí lembrar o que perdi, é uma espécie de luto, uma certa saudade dolorosa. Mas passa, passa como tudo!

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A diálise

O meu tratamento para me manter viva e minimamente saudável passa em fazer um tratamento 3 vezes por semana. Este tratamento chama-se diálise.

A diálise é tratamento que substitui a função dos rins quando estes deixam de funcionar, remove os resíduos e excesso de líquidos do corpo. Esta alteração na vida de uma pessoa, como o facto de passar a depender de uma máquina para se manter vivo é violenta e muito dura.

A máquina de diálise. Um doente a fazer um tratamento de diálise.

Engane-se quem pensa que o processo é fácil e que alguma vez o vai ser, porque não vai. Mas se conseguirmos definir que a doença não nos define e somos muito mais que a doença, então podemos conseguir ultrapassar e aprender a conviver com tudo o que nos envolve. E essencialmente há que arranjar algo mais importante para nos agarrar à vida. A família, os filhos, a própria vida.

Para mim foi o meu filho e a minha família, mas essencialmente o meu filho. O facto de ser ainda muito pequeno fez com que eu tivesse necessidade de o proteger ao máximo desta minha condição. Não lhe escondi nada, expliquei tudo, o que pode acontecer, os processos, tudo de uma forma muito leve, incluo nesta minha nova vida. Ele inteligente como é, reagiu muito bem, com algumas situações pelo caminho, que fomos resolvendo conforme havia necessidade.

Mas de forma a que ele não sofresse com a minha doença, pois não é fácil passar a infância com um dos pais doentes, agarrei em todas as minhas forças e tentei levar uma vida o mais normal possível, lidando com o que os dias me oferecem, uns bons, outros menos bons.

Quando tenho necessidade de cair no buraco fundo que é a minha realidade, faço o sozinha. Dou-me ao luxo de tirar algumas horas por vezes para deprimir, para chorar, para me revoltar com o mundo. Porque é necessário chorar de vez em quando! Mas depois tudo passa.

As clínicas de diálise são horríveis, porque o que assistimos lá dentro não é agradável, são frias, são duras e o tratamento dependendo de cada pessoa também não é nada, mas nada fácil.

Normalmente são 4 horas de tratamento, deitadas num cadeirão a ver todo o nosso sangue a ser retirado do nosso corpo, passar numa máquina e voltar a ser inserido novamente lá dentro. Mas o pior não é isso, o pior é darmos com a nossa realidade no vizinho da frente , do lado, de olharmos em volta e ver os 20 cadeirões cheios de doentes, idosos que já mal aguentam os tratamentos, doentes que ficaram insuficientes renais devido a uma outra doença que os vão enfraquecendo cada vez mais. É ver doentes que estão ali há anos e já definham, que já estão cansados e o próprio organismo já pede descanso. Isso sim, é o mais difícil.

Por vezes é necessário guardar tudo numa gaveta e fingir que é tudo normal, voltar para os braços de quem nos ama e deixar esse inferno lá. Porque dia sim, dia não, teremos de voltar.

Mas não se deixem vencer, respirem fundo e tentem encontrar algo de bom para compensar o mau. Mudem a perspetiva, a forma de olhar. Tudo o que é mau, também tem algo de bom.

No meu caso, pude ganhar muito mais tempo com o meu filho, apoia-lo nos estudos, posso acompanhar a sua infância e não perco nada, porque com a insuficiência renal tive de começar a trabalhar em casa e isso foi muito bom para o pequeno. E isso faz-me feliz!

Chorem, mas depois levantem a cabeça e aproveitem o de bom que a vida oferece!

 

 

 

 

 

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